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Despertar da Mente

"Democracy and socialism have nothing in common but one word, equality. But notice the difference: while democracy seeks equality in liberty, socialism seeks equality in restraint and servitude." Alexis de Tocqueville

"Democracy and socialism have nothing in common but one word, equality. But notice the difference: while democracy seeks equality in liberty, socialism seeks equality in restraint and servitude." Alexis de Tocqueville

Despertar da Mente

24
Dez09

Vai dar trabalho

Jorge Assunção

Na biblioteca, o 2666 sorri para mim. Existem dois exemplares disponiveis, ocupando pouco mais de 12 centímetros na última prateleira de uma estante. Não recordo se procurava algo específico na letra B, de Bolaño, mas sei que fiquei imediatamente convencido que a leitura para o Natal estava encontrada. O rapaz que regista os livros que entram e saiem da biblioteca, começa por perguntar-me se gostei de Faulkner. Digo-lhe que sim. Depois, acrescento que não gostei do Deus das Moscas (comecei logo por não gostar da tradução alternativa do título), do outro lado recebo a cara de alguém que não percebe como é possível não gostar do livro de Golding. Explico que já conhecia a história, havia visto a adptação cinematográfica e, portanto, o meu gosto pelo livro estava dependente não da história em si, mas da vivacidade, intensidade e fluidez da escrita. Contudo, a natureza altamente descritiva da obra e a inexistência de surpresas face àquilo que recordava do filme, havia provocado em mim nada mais do que aborrecimento. O rapaz finge que fica satisfeito com a minha resposta, pega finalmente no 2666 para dar saida deste nos registos e diz-me que é o livro na moda. Parece que sim, respondo eu. Tendo presente as mais de 1000 páginas do livro, digo-lhe que vai ser um livro que vai dar trabalho. Pondero corrigir a última frase, que sugere a ideia errada, mas limito-me a pegar no livro, soltar um boa tarde e abandonar o edíficio. O livro até pode dar trabalho, mas é um daqueles trabalhos que vem acompanhado de prazer e é feito com gosto. Por trabalho queria apenas dizer que ia demorar tempo, caso gostasse, até tê-lo lido todo. Se não gostasse, iria dar tanto trabalho como qualquer outro livro: o trabalho de devolvê-lo ao lugar de origem. Felizmente, já conclui a primeira das cinco partes que constituem o livro, e podem ter a certeza que este só é devolvido depois de concluida a leitura integral da obra.

20
Dez09

Ligações

Jorge Assunção

N’O Idiota, de Dostoiévski, o Principe Mishkin descobre o livro de Madame Bovary, de Flaubert, no quarto de Nastássia Filíppovna. Em Anna Karénina, de Tolstoi, no posfácio da autoria de Nabokov, são traçadas várias comparações com a história de Madame Bovary. Madame Bovary tornou-se então, para mim, objecto de leitura obrigatória, como peça de um puzzle que preciso urgentemente de completar. Nos últimos tempos, as minhas leituras têm seguido um caminho como que programado, como que guiado pelas influências entre escritores.

 

No A Sangue Frio, de Truman Capote, é engraçada aquela passagem que aqui assinalei. Antes dela, enquanto lia a cena do tribunal, que acabou com a condenação de Perry e Hickcock, era impossível não pensar no paralelismo com a cena do tribunal d’Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Capote faz uma homenagem ao escritor russo e, caso esta tivesse escapado aos seus leitores, naquele excerto confirma essa homenagem.

 

O Som e a Fúria, de Faulkner, foi-me sugerido por Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo. Na obra de Huxley, o Selvagem responde frequentemente com recurso às obras de Williams Shakespeare. A certa altura faz referência a uma passagem da obra MacBeth: “Life is a tale / Told by an idiot, full of sound and fury, / Signifying nothing.” Presumi logo que era também a esta passagem que Faulkner tinha ido buscar o título do seu livro. Não me enganei. E também não estranhei quando logo no prefácio da obra de Faulkner, da autoria de António Lobo Antunes, descobri que Faulkner foi influenciado por Huxley.

18
Dez09

A importância de ter nome

Jorge Assunção

José Rodrigues dos Santos já vendeu um milhão de livros

 

No outro dia, Miguel Sousa Tavares, um escritor que aprecio, queixava-se dos criticos que só por uma obra vender muito, logo passam a não gostar dessa obra. Tem razão Sousa Tavares. Mas há algo que é preciso não deixar escapar: até Miguel Sousa Tavares reconhecerá que o seu nome ganhou visibilidade não por ser escritor, mas pelas actividades desenvolvidas antes de se ter dedicado à escrita. E que, por grande escritor que seja, as vendas que alcança não derivam única e exclusivamente da sua escrita, mas também dessa visibilidade obtida previamente. É que está mais do que provado que não basta ser bom escritor para vender muitos livros. E convém não cair no erro contrário dos críticos: quem vende muito, não é necessariamente bom escritor.

15
Dez09

O discurso inconveniente

Jorge Assunção
15
Dez09

Frases Literárias

Jorge Assunção

   Na noite de 28 de Novembro, perto das sete horas, Jennie Marie estava com os pais, na sala, a ver televisão; Lowell Lee encontrava-se fechado no quarto a ler o último capítulo de Os Irmãos Karamazov. Terminado o livro, fez a barba, vestiu o melhor fato que tinha e começou a carregar uma carabina semiautomática 22 e um revólver Ruger do mesmo calibre. Meteu este num coldre preso ao ombro, pôs a carabina no braço e atravessou o átrio em direcção à sala, imersa em trevas, com excepção do ecrã de televisão. Acendeu um comutador, apontou a carabina, puxou o gatilho e atingiu a irmã entre os olhos, matando-a instantaneamente. Disparou três vezes contra a mãe e duas contra o pai. A mãe, de olhos arregalados e braços estendidos, avançou para ele, aos tropeções; tentava falar, abria e fechava a boca, mas Lowell Lee exclamou:

   -Cale-se!

   E, para ter a certeza de ser obedecido, disparou contra ela mais três tiros.

 

A Sangue Frio, Truman Capote, Publicações Dom Quixote, Tradução de Maria Isabel Braga

09
Dez09

Frases Literárias

Jorge Assunção

- Bem, sobre essa unidade de pensamento pode dizer-se ainda outra coisa – disse o príncipe. – Eu tenho um genro, Stepan Arkáditch, vocês conhecem-no. Ele vai agora obter o lugar de membro do comité da comissão e não sei que mais, não me lembro. Mas não há lá nada que fazer [...], e são oito mil rublos de ordenado. Experimentem perguntar-lhe se o seu serviço é útil – ele mostrará que é muito útil e necessário. E ele é um homem sincero, mas é impossível não acreditar na utilidade dos oito mil.

 

Anna Karénina, Lev Tolstoi, Relógio D’Água, Tradução de António Pescada

06
Dez09

Frases literárias

Jorge Assunção

A nossa mesa de jantar, ou provavelmente qualquer outra do nosso quarteirão, jamais fora palco de um manancial de frases tão esclarecidas como estas, e foi por isso surpreendente – quando o rabi concluiu o discurso perguntando mansamente, quase intimamente, «Diga-me, Herman, o que expliquei começou a dissipar os seus temores?» - ouvir o meu pai responder terminantemente: «Não. Não. Nem por um momento.» E depois, sem se importar com a possibilidade de fazer uma afronta que não só despertaria o desagrado do rabi como também insultaria a sua dignidade e provocaria o seu desdém rancoroso, acrescentou: «Ouvir uma pessoa como o senhor falar dessa maneira... francamente, assusta-me ainda mais.»

 

A Conspiração Contra a América, Philip Roth, Publicações Dom Quixote, Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

05
Dez09

Frases literárias

Jorge Assunção

Ele virou-se e olhou-o. Parecia ter estado a chorar.

Diz-me só o que é.

Nós nunca seríamos capazes de comer uma pessoa, pois não?

Não. É claro que não.

Mesmo que estivéssemos a morrer de fome?

Nós não estamos a morrer de fome.

Tu disseste que já estávamos.

Morrer de fome é uma maneira de dizer. Nós estamos cheios de fome, mas não estamos mesmo a morrer.

Mas nunca faríamos isso.

Não. Nunca. Aconteça o que acontecer.

Porque nós somos os bons.

Sim.

E transportamos o fogo.

E transportamos o fogo. Sim.

Está bem.

 

A Estrada, Cormac McCarthy, Relógio D’Água, Tradução de Paulo Faria

03
Dez09

Frases literárias

Jorge Assunção

Mas pode um homem executar ordens impossíveis, quando sabe o resultado a que conduzirão? Sim, devia executá-las, porque é a única maneira de poder provar a sua impossibilidade. Como verificar isso antes da prova? Se cada um se pusesse a dizer que as ordens não poderiam ser executadas, aonde iríamos parar? Que seria de todos nós, se respondêssemos «impossível» ao recebermos ordens?

 

Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway, Companhia Editora Nacional, Tradução de Monteiro Lobato

29
Nov09

Frases literárias

Jorge Assunção

Agora, meus senhores, vou contar-vos, seja ou não do vosso agrado, por que não consegui tornar-me nem sequer um insecto. Solenamente vos digo: eu quis ser insecto, reiteradas vezes. E nem disso tive a honra.

 

Cadernos do Subterrâneo, Fiódor Dostoiévski, Assírio & Alvim, Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

 

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.

 

Metamorfose, Franz Kafka, Público (colecção Mil Folhas), Tradução de João Crisóstomo Gasco

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