Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Um retrato da sociedade

A aprovação no exame de condução era passível de ser comprada (bastava dar uma palavrinha ao instrutor uns dias antes, e no próprio dia do exame, levávamos o envelope com determinda importância, colocava-se o envelope no porta luvas do carro e estava garantida a aprovação - instrutor e examinador tinham mais um rendimento extra). Na aquisição de habitação era (quase) sempre declarado um valor inferior ao efectivamente pago (o construtor tinha menos lucro para apresentar ao fisco e o comprador pagava menos taxas). Não era dificil, quando apanhados pela brigada de trânsito a cometer uma infracção, assinalar com determinado valor monetário e sair impune (o polícia obtia um rendimento extra e o infractor poupava a diferença entre o valor utilizado para corromper o polícia e o valor da multa e as consequência que dai podiam advir). Boa parte das pessoas tem isto bem presente na memória e se, entretanto, algumas destas coisas mudaram, não é menos verdade que existiram e muitas das pessoas não só têm estas coisas na memória, como terão usufruido uma ou outra vez destas. É por isso que muitos aceitam perdoar o político corrompido e o empresário que corrompe, é por isso que não desejam que estes sejam julgados de forma dura. Na sua consciência, pesa o facto de que, se estes agora merecem pena dura, também eles, outrora, não agiram melhor (à escala do que lhes era possível, é certo) e mereciam igual sorte.

 

Há uma história, aqui das redondezas da zona onde vivo, que ilustra bem o tipo de justiça que temos: existe um elemento da brigada de trânsito que enriqueceu como que do dia para a noite. Os sinais exteriores de riqueza substanciavam-se, entre outras coisas, numa vivenda que havia construido e nos carros que possuia. Na povoação, falava-se constantemente, com surpresa, da proveniência do dinheiro que teria permitido aquela nova vida. Suspeitavam que a profissão do sujeito não era alheia ao estilo de vida, mas as coisas não passavam da suspeita. Mais tarde, existiram fortes indicios, descobertos pela própria instituição, de que o sujeito era corrupto. Qual foi o castigo do homem? Foi remetido para trabalho de secretaria e ainda lá está. Foi esta a pena dura do homem.

 

Ou as gerações mais novas começam a ser criadas num ambiente diferente, ou arriscamos prolongar esta sociedade que convive bem com a corrupção durante longos anos. É que o primeiro passo para mudar este estado de coisas é através da censura social. Maria José Nogueira Pinto lamentava, na Sic Noticias, que essa censura social fosse praticamente inexistente na nossa sociedade. Pois ela é inexistente porque aquele que não se sente limpo, não se atreve a julgar e condenar de forma dura o sujo. Mas tratem, ao menos, e a bem da evolução da nossa sociedade, de não sujar as gerações mais novas.

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publicado por Jorge Assunção às 13:42
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5 comentários:
De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Novembro de 2009 às 14:43
Infelizmente ainda somos um país onde a corrupção está bem vista. O chico-espertismo português aplaude quem salta as normas e procura benificios sem olhar a regras morais.

O aluno que falsifica a assinatura dos pais, os filhos que roubam da carteira dos pais quando estes não olham, os funcionários que dão "um jeitinho", os estagiários que fazem trinta por malinha para agradar (especialmente se são "estagiárias" porque isto ainda é, infelizmente, assim). Somos um país onde todos nascem iguais e depois quem quer singrar na vida opta pelo caminho desonesto. Os outros limitam-se a lutar com as poucas armas que têm.

O problema é que essa corrupção está tão enraizada que já não escandaliza nada nem ninguém. A Face Oculta há muito que está descoberta e quem anda nos meios sabe perfeitamente que isto é o "pão nosso de cada dia". Empresas privadas ou publicas, camaras ou governos, é indiferente. É o país que temos. E que as novelas da TVI, o Benfica a ganhar, os "falsos-famosos" e afins vão servindo para enganar quem quer ser enganado. Os outros, são os que estão já no ringue.

Optima reflexão

um abraço
De Jorge Assunção a 6 de Novembro de 2009 às 12:35
Ora, nem mais Miguel, destaco esta tua observação:

"A Face Oculta há muito que está descoberta e quem anda nos meios sabe perfeitamente que isto é o "pão nosso de cada dia"."

Infelizmente, não podias ter mais razão. Mas esse sentimento de que todos sabem perfeitamente que isto é o "pao nosso de cada dia", mas ninguém consegue fazer muito para alterar tal estado de coisas, é um sentimento que pode facilmente descambar para a apatia. Para aceitarmos tal estado de coisas sem a capacidade de nos revoltarmos pelo que acontece e que todos sabemos que acontece. Para olharmos para a corrupção como o habitual e não a anormalidade que é necessário combater. Por isso falo das gerações mais novas e da necessidade de não corrompê-las.
De Miguel Lourenço Pereira a 6 de Novembro de 2009 às 15:14
Jorge,

Tens toda a razão, mais uma vez meu caro.

O problema é que esta questão de apatia está enraizada na cultura portuguesa. Nao é, como muitos gostam de dizer, um reflexo do salazarismo. O salazarismo é que é um reflexo do portugues.

A corrupçao nas empresas e estado é o macro-cosmos da realidade quotidiana. Dos pais e filhos, das familias, dos cafés, das pequenas empresas familiares, da escola publica e privada, da saude, de todos os sectores.

O portugues é um povo corrupto por natureza porque é o caminho mais curto para o chico-espertismo de fazer pouco e ganhar muito com isso. A apatia nao existe na realidade, porque as pessoas concordam com esse chico-espretismo. Praticam-no diariamente. Podem resmungar aqui e ali, mas sao participes, mesmo dando a ideia que nao o sao. A elevada abstensao, os corruptos elegidos com maiorias, tudo isso é o espelho do que pensa a populaçao.

Nao ha movimentos populares, nao ha uma constentaçao real nem visivel em periodos eleitorais. Nao ha uma imprensa critica e que denuncia. Isso nao chega a ser apatia. Isso chama-se cumplicidade. Nao é que nao haja capacidade de revolta. É que nao ha desejo de que isso suceda. E quanto ás geraçoes mais novas, o grande dilema é a pseudo-sexualidade dos Tokyo Hotel ou o lançamento da nova Playstation. E custa-me dize-lo, mas é a realidade que encontro diariamente.

Um abraço
De Livia Borges a 5 de Novembro de 2009 às 22:46
A partir do momento em que se elegem autarcas e diz-se, encolhendo os ombros, que "ele rouba, mas faz", está tudo dito.
Devemos, contudo, todos nós apontar o dedo a situações dessas e não encolher os ombros.
De António de Almeida a 6 de Novembro de 2009 às 10:55
Brilhante texto Jorge, não poderia estar mais de acordo.

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