Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Contrariado

O Presidente disse ter informação de que "sondagens que terão sido feitas manifestam uma preferência por eleições simultâneas", ou seja, na mesma data das eleições autárquicas. "Mas, repito, nesta matéria a opinião dos partidos é importante", vincou.

 

Por esta altura já se percebeu que Cavaco Silva teria preferência por marcar as eleições para o mesmo dia. Contudo, o facto de só ter o PSD a seu favor torna essa uma decisão com elevado custo político. Passa o risco de ver as suas decisões coladas ainda mais ao que a líder do PSD também defende. Já no caso das grandes obras públicas é notório que Cavaco alinha com o discurso laranja. Para evitar que esse alinhamento se torne mais notório, o presidente será de certa forma forçado a tomar uma posição neste caso que não é certamente a que defende.

 

Mas na minha opinião pessoal ficariamos melhor servidos se optássemos pelo mesmo dia para a realização das eleições. Por dois motivos: o primeiro porque é óbvio que o argumento económico deve contar. Já vi argumentar que se nas eleições adoptarmos tal argumento, não tarda nem eleições fazemos porque sai mais barato. Ora, isso é uma falácia, porque o argumento económico é tão só: perante aquilo que tem de ser feito, como é que tal é feito de forma eficiente ao mínimo preço possível. Ou seja, o argumento económico nunca pretende limitar aquilo que tem de ser feito, procura é responder à forma como tal deve ser feito. Por isso, para contrariar o argumento da poupança nos gastos, os partidários de eleições em dias diferentes têm de conseguir atribuir um custo à realização de eleições no mesmo dia, e é ai que entra o factor da contaminação do voto. Mas eu não compro esse argumento. Aceitar esse argumento significa que os mesmos que são capazes de decidir perante propostas diferentes e complexas qual a melhor para o país, não são capazes de distinguir nas urnas a natureza diferente de duas eleições. Mais do que isso, comprando esse argumento coloca-se a questão de como é que nas próprias autárquicas os eleitores já são confrontados com votação de natureza diferenciada, uma vez que votam para mais do que um orgão.

 

Já o segundo argumento a favor de eleições no mesmo dia é a abstenção. A situação não se colocaria se as eleições não fossem tão próximas (e o mesmo digo para o argumento económico), mas a questão a colocar é qual o efeito de ter duas eleições separadas por quinze dias? E o efeito não é dificil de adivinhar: as pessoas tem preferências e nem todas estão dispostas a deslocar-se por duas vezes em tão pouco tempo à urna de voto. É claro que é também aqui que, parece-me, se entra mais no jogo partidário e no motivo da oposição generalizada dos partidos políticos à decisão de eleições no mesmo dia. Aos partidos não lhes interessa o valor da abstenção, nunca interessou. Aos partidos políticos interessa ganhar. E o eleitorado das autárquicas é maioritariamente laranja. É possível então admitir que as eleições no mesmo dia diminuam a abstenção sobretudo com uma maior adesão de pessoas que votam tradicionalmente no PSD, pessoas essas que, talvez desmotivadas pela actual liderança do partido, de outra forma não se deslocariam para votar nas legislativas. Ou seja, as eleições no mesmo dia mobilizam o eleitorado do PSD. E nenhum dos outros partidos tem qualquer interesse nisso. Mas quando no dia das eleições alguns partidos políticos lamentarem a fraca adesão popular às eleições, não deixarei de esboçar um sorriso.

publicado por Jorge A. às 15:33
link do post | comentar
16 comentários:
De António de Almeida a 23 de Junho de 2009 às 18:55
Julgo que o Presidente acabará por marcar datas diferentes, com um recado dos seus. Também me parece que uma colagem ao PSD poderia ser contraproducente, logo em primeiro lugar para o partido, apesar dos portugeses ao que parece, preferirem a mesma data.
De Jorge Assunção a 23 de Junho de 2009 às 21:48
"Julgo que o Presidente acabará por marcar datas diferentes, com um recado dos seus."

Eu espero bem que não exista nenhum recado. Eu acho que Cavaco vai marcar para datas diferentes por mera táctica política. Mas como a responsabilidade é dele e só dele que assuma por completo tal decisão. Eu depois saberei tomar isso em consideração quando tiver que fazer a avaliação deste presidente.
De António de Almeida a 24 de Junho de 2009 às 12:39
Eu já fiz a minha avaliação deste presidente, com o acordo ortográfico...
De Jorge Assunção a 24 de Junho de 2009 às 16:17
Eu já fiz desde a sua aprovação à não realização do referendo ao Tratado de Lisboa. Isso vindo de quem queixa-se que os políticos do burgo não cumprem as promessas.
De Daniel João Santos a 23 de Junho de 2009 às 20:33
Acredito que a maioria do cidadãos que resolver a questão de uma vez.

A maioria dos partidos acha que o pessoal vai lá e vota tudo de uma vez com os olhos fechados.

Muita gente, incluindo eu, nas autárquicas, votou em diferentes partidos para diferentes orgãos.
De Jorge Assunção a 23 de Junho de 2009 às 21:50
"Acredito que a maioria do cidadãos que resolver a questão de uma vez."

Parece que o PR acredita no mesmo ou, pelo menos, tem umas sondagens que lhe indicam isso mesmo. E eu acredito que o presidente faz parte dessa maioria.
De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 23 de Junho de 2009 às 21:24
Olá, Jorge!
Gostei muito desta análise. Também sou a favor das eleições no mesmo dia, não tem lógica "promover" a abstenção. E seria muito mais barato.
As reservas do Presidente e do custo político, que essa decisão lhe traria, não me comovem: e o preço que os cidadãos tiveram de pagar pela sua "cooperação estratégica"? Era uma forma de os compensar, não era?
De Jorge Assunção a 23 de Junho de 2009 às 22:05
"As reservas do Presidente e do custo político, que essa decisão lhe traria, não me comovem"

Também a mim não, Ana. Acho aliás que foi eleito para defender os interesses de todos os portugueses e não só os interesses dos partidos políticos. Há alturas em que os interesses de uns e outros não coincidem. Este parece-me um desses casos. Mas o custo político não é do interesse pessoal de Cavaco Silva que corre para a reeleição. Falta saber se saberá meter os interesses de todos os portugueses não só acima dos interesses de alguns partidos, mas também do seu próprio interesse. E é aqui neste último ponto que manifesto as minhas dúvidas para com Cavaco.

Quanto à "cooperação estratégica" tens toda a razão. Essa teve um preço elevado para os cidadãos, mas ai não reprovo totalmente Cavaco. De certa forma, fez o que prometeu durante a campanha eleitoral. Mas sim, acho que já era altura de compensar aqueles que estiveram contra essa estratégia e, ao mesmo tempo, penalizar de certa forma este PS que a má hora lembrou-se de afrontar Cavaco com o estatuto dos Açores.
De Ega a 24 de Junho de 2009 às 00:33
Infelizmente, caro Jorge A., neste assunto não posso concordar com o que aqui defendes.

Num mundo perfeito e esclarecido não me opunha a eleições no mesmo dia, fossem elas legislativas, autárquicas, mais um referendo e ainda eleições para a associação de pesca desportiva.

Porém, céptico como sou, não creio em mundos perfeitos.

Creio sim que vivemos num país no qual as pessoas estão, em regra, pouco esclarecidas e votam mais por convicção clubistica do que por outra coisa qualquer. Ora, eu luto contra isso. E juntar duas eleições com dinâmicas distintas, com importâncias (e muita) distintas, num mesmo dia é precisamente ir contra essa ideia de esclarecimento que pretendo.

Compreendo até que um cenário desses até possa actualmente favorecer o PSD (partido em que tenho votado desde que sou gente), e do ponto de vista de racionalidade económica até faça todo o sentido.

Mas no que toca a eleições, e talvez seja a excepção nos gastos de um Estado, é precisamente a área onde o critério economicista deverá ser aplicado com muita cautela.

Cumprimentos
De Jorge Assunção a 24 de Junho de 2009 às 01:43
Caro Ega,

bem sei que defendes coisa contrária, li o texto no Metafísica. Mas repara que o critério economicista já é aplicado quando decidem onde colocar urnas de voto (são poupados com os sítios onde permitem às pessoas votar). E isso nunca originou o debate que agora temos.

De resto, parece-me que a nossa divergência de opinião prende-se mais com o custo que atribuímos à colocação de eleições de natureza diferente no mesmo dia. Ai concordo que o problema que colocas faz sentido, mas as pessoas pouco esclarecidas são fruto da falta de esclarecimento por parte dos partidos que durante muito tempo gostaram de promover essa ideia de clube de futebol, uma vez que fidelizava eleitores. Nesse sentido, para mim, a colocação de eleições no mesmo dia seria uma mais valia porque vem contra essa menorização que os partidos sempre fizeram dos eleitores.

"Compreendo até que um cenário desses até possa actualmente favorecer o PSD"

O facto de favorecer o PSD não é motivo para ser a favor ou contra. Quando refiro isso só pretendo explicar o motivo pelo qual todos os partidos, excepto o PSD, são contra as duas eleições no mesmo dia. Eles não estão preocupados se as pessoas estão esclarecidas ou não, eles querem é a máxima percentagem na eleição e é com base nisso que tomam posição.

Um abraço.
De manuel gouveia a 24 de Junho de 2009 às 09:40
O combate à abstenção é quanto a mim o argumento de maior peso. Mas Cavaco terá que ponderar os custos pessoais de uma excessiva colagem ao PSD. Pouco inteligente a estratégia do BE .
De Jorge Assunção a 24 de Junho de 2009 às 16:16
Pelo contrário, o BE é tão inteligente que já anunciou o apoio a Alegre para as presidenciais. O argumento contra a abstenção é o mais forte porque demonstra como os partidos são hipócritas quando na noite eleitoral referem sempre o quão desiludidos estão com a afluência às urnas. Como digo, eles querem lá saber quem vai votar, eles querem é ganhar.
De manuel gouveia a 24 de Junho de 2009 às 17:02
Por isso digo que o BE, que foi inteligente ao apoiar o Manuel Alegre, o que só serve ara lixar o PS, podia agora dar uma de "respeitar os interesses nacionais" em vez de tentar entalar o PSD.

Tinha uma oportunidade de mostrar ser um partido maduro ajudando o PR numa decisão difícil!
De Livia Borges a 24 de Junho de 2009 às 10:38
Tanta preocupação de quem não vota...
De Jorge Assunção a 24 de Junho de 2009 às 16:11
Tanta preocupação com o que eu faço ou deixo de fazer...
De Chloé a 25 de Junho de 2009 às 03:44
Completamente de acordo. Pergunto-me se Soares ou Sampaio seriam tão marcados à lupa caso decidissem, por bons motivos, o mesmo que o partido deles preconizasse. Mas enfim!
Cavaco fica agora refém da sua lendária cooperação institucional. À mínima diversão... custos políticos em cima.

Quanto à abstenção, é um argumento poderosíssimo, é evidente. Que pertence à essência democrática. Portanto, também à essência do acto eleitoral. Legitimaria só por si a opção.

Comentar post

Web Pages referring to this page
Link to this page and get a link back!

Mais sobre mim

Contacto

jorgeassuncao@europe.com

Subscrever feeds

Pesquisar neste blog

Links

Arquivos

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Secções

desporto(383)

politica nacional(373)

cinema(291)

economia(191)

música(136)

ténis(132)

humor(131)

futebol(130)

eleições eua(118)

estados unidos(115)

portugal(115)

blogs(109)

miúdas giras(93)

jornalismo(88)

politica internacional(87)

governo(79)

televisão(74)

blogosfera(69)

oscares(68)

pessoal(55)

todas as tags

blogs SAPO