Sábado, 7 de Março de 2009

Watchmen II

É o fim do cinema de super-heróis tal como o conhecemos.

 

Quem o diz é Jorge Mourinha na crítica ao filme Watchmen logo na primeira linha do texto. É um equívoco completo, em que Mourinha atribui ao filme o mesmo significado que é atribuido ao comics publicado nos finais da década de oitenta. Mas o filme está longe de ter esse peso, porque o que não falta no cinema são super-heróis que há muito adoptaram o conceito implicito no livro de Alan Moore - o batman do The Dark Knigh é bom exemplo disso (que, aliás, é inspirado num livro de Frank Miller anterior a Watchmen e que não contribuiu menos do que este na alteração do conceito até então existente de super-herói). A crítica continua, sendo depois afirmado que o "elenco do filme é inatacável", juro que é caso para rir não fosse aquilo dito com a seriedade que se conhece ao crítico - em parte porque do elenco, em papel de destaque, surge uma Malin Akerman a quem não reconheço capacidade por aí além (gira, sim, muito gira, pouco mais do que isso) e porque outra parte do elenco sofre do problema de inadaptação ao personagem que retrata, Matthew Goode e Patrick Wilson, na pele de Ozymandias e Nite Owl II respectivamente, são bons exemplo disso.

 

É certo que parte do problema está na falta de densidade das personagens e tal pode ser imputado ao realizador, mas este na minha opinião teria sempre muita dificuldade em fazer de Watchmen mais do que aquilo que fez, em primeiro lugar porque as quase três horas de duração do mesmo seriam insuficientes para passar para o ecrã o livro (isto merecia triologia tipo O Senhor dos Anéis) e em segundo lugar porque muito provavelmente o espirito que perpassa nas páginas da banda desenhada não conseguem ser transpostas para filme.

 

Por esta altura já perceberam que não achei o filme, nem de perto, nem de longe, uma obra-prima. Mas isso não impede que este, dentro do género, seja bom. Acima da média, diria mesmo. Mas depois de um The Dark Knight que elevou o patamar dos super-heróis a outro nível, Watchmen deixa um trago amargo na boca e junta-se a um conjunto já muito alargado de adaptações cinematográficas de obras literárias ao grande ecrã que ficam longe de corresponder à qualidade do trabalho original.

 

Na prática, Snyder ficou prisioneiro de um universo muito específico e complexo que tinha de ser reduzido a um tempo razoável de cinema, a solução para tal era não ser fiel à obra - reduzir o protagonismo de alguns heróis, diminuir os vários mini-argumentos em torno do argumento maior, alterar o contexto de um Nixon ainda no poder e em perigo de dar-se uma guerra nuclear com uma União Soviética - optando pela fieldade, não podia aspirar a muito mais do que o que conseguiu: um bom filme de entretenimento, mas que não passa disso, ficando em muito limitado aos apreciadores do género.

 

Em 1984, o grande David Lynch fez o mesmo com a obra-prima de Frank Herbert, Dune, também falhou redondadamente (embora eu seja um fã confesso dessa obra de Lynch). Contudo, a avaliar por algumas reacções que tenho lido, talvez Watchmen tenha melhor sorte junto do público que a obra de Lynch. Na parte que me toca, gostei, mas não amei...

 

Adenda: para outra análise ao filme, ler isto: who watches the watchmen? (II) (via: vozes dissonantes)

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publicado por Jorge A. às 04:00
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