Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Rorschach

No Twitter, no Blip e na minha antiga conta do Blogger adoptei como icone de apresentação uma representação do Rorschach, a personagem mais fascinante do Watchmen de Alan Moore. O motivo não é a minha identificação especial com o personagem e aquilo que ela representa, mas há uma particularidade que sempre achei curiosa e relevante em Rorschach. Este não é muito mais do que a representação que Alan Moore fazia das ideias de Ayn Rand.

 

O personagem é, em última instância e recorrendo à própria classificação de Moore, um elemento da extrema-direita. Ao mesmo tempo não andarei longe da verdade se o classificar como o mais interessante e misterioso personagem aos olhos da maioria dos leitores do livro.

 

Mas o fascinio que desperta vem também embrulhado num sentimento de repulsa. O objectivismo e absolutismo moral de que a sua personalidade se reveste (a divisão clara entre o bem e o mal, a visão a preto e branco do mundo) e a sua refusa em pactuar com os designios do "bem-comum", tornam-no tanto num herói como no seu contrário. E deixam o leitor confuso sobre a concordância ou a falta dela para com as acções de Rorschach.

 

Em parte, Moore procura retratar Rorschach não como um agente de mudança para com o mundo podre em que se encontra, mas como um ser cujas acções fazem parte integrante desse mundo (e perpetuam o estado das coisas). Nesse sentido, ao contrário do V de V for Vendetta, que luta contra um estado policial e procura efectivamente mudar o mundo, atreveria-me a dizer que Rorschach poderia, num contexto fora de Watchmen, ser elevado ao posto de representante máximo desse estado policial imaginado por Moore no universo de V for Vendetta.

 

No fim, sendo certo que não partilho com todo o pensamento de Ayn Rand, confesso que é impossível não achar que Moore apresenta uma visão distorcida do objectivismo de Rand. E esta forma de preconceito generalizado para com as posições de Rand são fáceis de encontrar no mundo real perante outros pensadores como Hayek, Mises ou Rothbard. Alan Moore está longe portanto de cometer uma originalidade.

 

Moore não faz mais do que é prática corrente no mainstream, que é tratar todo o pensamento que aparenta ser estranho e diferente como coisa de maluquinhos e paranóicos. É isso que ele directamente chama a Rand com o seu Rorschach. Curiosamente, ou então não, o mainstream não anda muito longe de classificar as ideias politicas e filosóficas de Moore da mesma forma.

 

E nem é preciso ir às ideias de Moore. Afinal, confessem lá, o que diriam de um tipo que se presta a aparecer em público nesta figurinha:

 

publicado por Jorge A. às 16:42
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5 comentários:
De AP a 17 de Fevereiro de 2009 às 13:34
Pelos anos que o homem leva sem aparecer ao público acredito que essa foto já tem uns bons anos.
O que diz muito da visão, e aceitação, que Moore tem do mundo.
De Jorge A. a 17 de Fevereiro de 2009 às 19:23
"Pelos anos que o homem leva sem aparecer ao público acredito que essa foto já tem uns bons anos."

2006, segundo a Wikipedia. Mas no Flickr encontra-se fotos dele recentes.

"O que diz muito da visão, e aceitação, que Moore tem do mundo."

Um facto, a sua relação nunca foi muito fácil com o mundo exterior. Mas, independentemente de não gostar da sua visão final sobre o mundo, eu gosto muito de todo o trabalho de Moore que conheço. O "V for Vendetta" e o "Watchmen" são a todos os niveis obras excelentes.
De AP a 18 de Fevereiro de 2009 às 08:04
Então não são assim tantos anos, pensei que fossem mais.
Também gosto muito do trabalho de Moore, desde "From Hell" até ás obras que o Jorge refere.
De Marco A. a 18 de Fevereiro de 2009 às 11:59
Olá mais uma vez,

Alan Moore é sem dúvida um criador cheio de talento, dada a susbstância das suas histórias, a envolvente política, e a riqueza das suas personagens, que mesmo sem poderes (como Rorschach) sobresaem pelos seus ideais (mesmo que distorcidos/polémicos) e perturbações (veja-se a história tanto de Rorschach como de Eddy Blake, o comediant).

Sem dúvida a graphic novel Watchmen é uma grande obra, sendo um dos exemplos de sucesso de um estilo "dark comic" (um outro exemplo será o Sin City) que já conta com algumas adaptações ao cinema. Estou com muitas expectativas, e espero que as mesmas não sejam defraudadas, veremos em Março.

Cumprimentos
De Jorge A. a 18 de Fevereiro de 2009 às 19:11
"um outro exemplo será o Sin City"

Desde que comecei a ler comics, o Miller é sem dúvidas o meu favorito (o The Dark Knight Returns e o Year One, por exemplo, são muito bons). Mas o Moore, em termos de complexidade, parece-me ser o melhor (e ao Moore devo-lhe o facto de ter começado a ler comics).

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