Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Sobre Israel

Escreve Ethan Bronner:

Implicit in Mr. Benn’s argument, however, is that the only way to stop Hamas from gaining legitimacy is for Israel to occupy Gaza again, more than three years after removing its soldiers and settlers. That is a prospect practically no one in Israel or abroad is advocating. [...] It may take weeks or months, they assert, but it can work. If true, the questions still remain: At what human cost? And who will be in charge when it is all over?

O problema aqui está no que uma nova ocupação por parte de Israel da faixa de Gaza representaria - e se, desde o inicio do processo foi esse o objectivo, põe em causa de que forma pode ser encarada esta guerra israelita como uma guerra defensiva (para já, aceite por mim enquanto tal e pelos vistos também pela União Europeia). Enquanto o objectivo de Israel concentrar-se em enfraquecer o poderio militar e organizativo do Hamas, tendo em conta a posição deste no conflito, compreende-se (embora tenha sérias dúvidas sobre se os resultados serão positivos). Agora, partir para uma táctica de reocupação da faixa de Gaza é um erro e utilizar tal recurso para não perder a face frente ao Hamas, recorrendo à sabedoria popular, é pior a emenda que o soneto (a promessa que a guerra terrestre vai durar "muitos longos dias" não é bom sinal).

 

É certo que a maioria do povo israelita está de acordo com o seu governo e, como está provado pela história, qualquer que seja a cor politica do governo eleito em Israel terá sempre uma politica agressiva para a região e para com os seus opositores. Há quem diga que tal politica tem resultado em fracasso, discordo. Pode ter apresentado custos humanos pesados, sobretudo para os seus opositores, mas para um país rodeado desde a primeira hora por inimigos, a sua sobrevivência só pode ser sinal de politica de sucesso e parece-me que é também essa a análise do povo e lideres israelitas. Claro que o insucesso a que se referem os opositores da politica tipica de Israel relaciona-se com o extremismo crescente entre os adversários de Israel e o notório complicar do processo para a criação de dois Estados na região.

 

Mas quem conhece as raizes históricas do processo sabe perfeitamente que o lado extremista e intolerante desde a primeira hora sempre esteve bem identificado. O plano de partição acordado na ONU em 1947 teve oposição imediata das forças árabes e palestinianas, que identificaram logo ali o futuro estado de Israel como um seu inimigo e forçaram a guerra israelo-árabe de 1948. De lá para cá poucas vezes os palestinianos abandonaram a sua posição extremada e das raras vezes que aceitaram negociar sobre condição de cessar fogo, nunca conseguiram cumprir tal promessa.

 

Mais recentemente os israelitas fizeram concessões, desocuparam a faixa de Gaza e desmantelaram alguns dos famosos colonatos, a esperança de reiniciar um processo de paz efectivo com uma Organização para a Libertação da Palestina menos radical e mais moderada era real. Os palestinianos para credibilizarem a sua liderança deram inicio a um processo democrático. Tendo sido dada voz ao povo palestiniano a escolha deste recaiu no Hamas. Foi tanto um murro no estomago da comunidade internacional que forçou o processo democrático, como foi um rude golpe para os israelitas que esperavam ter um parceiro mais moderado com quem negociar.

 

Dado isto, não me admira a pespectiva israelita que a coisa só lá vai mesmo à bomba e ao tiro. Mas, mesmo partindo de uma posição que é a minha de apoio a Israel no conflito em causa e reconhecendo razão aos israelitas quando afirmam que muitos dos que os criticam fariam igual ou pior em situação semelhante, não é menos verdade que aqueles que estão fora do conflito também podem apresentar uma visão menos apaixonada e mais racional sobre o mesmo (outras vezes nem por isso). Dito isto, julgo que seja altura da comunidade internacional, sem o espalhafato das declarações pacifistas (muitas delas hipócritas) que caracterizam alguns lideres internacionais, moverem a sua diplomacia em força no sentido de recomendarem a Israel a não promoção da escalada de violência na faixa de Gaza.

 

Claro que o Hamas vai continuar a ser um problema e só fará bem à comunidade internacional reconhecé-lo enquanto tal, em vez de fazerem de conta que são uma coisa menor e que o desbloquear da situação está maioritariamente no lado de Israel, mas no que toca à guerra agora em curso e à dimensão que ameaça tomar, tendo em conta as perspectivas reduzidas de acabar com o problema Hamas, quando mais cedo acabar melhor.

 

Como última nota, convém frisar que Israel continua com um grande problema de relações públicas (nesta guerra é notório que tentou contrariar isso com uma politica para os meios de comunicação social mais influentes extremamente activa). Mas se o poder militar está maioritariamente do lado israelita, no poder mediático os palestinianos batem-nos aos pontos.

publicado por Jorge A. às 02:10
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2 comentários:
De Tiago R Cardoso a 4 de Janeiro de 2009 às 11:46
o que se espera é que a ofensiva de Israel seja bem conseguida e destrua se não todo a grande maioria do arsenal do Hamas.

Evidentemente que se exige de seguida uma retirada, devendo tudo isto servir como um forte aviso aqueles senhores.

O mal é que eles não ouviram o aviso e voltaram ao mesmo, nessa altura Israel tomará definitivamente o controlo do território.

De Jorge A. a 4 de Janeiro de 2009 às 15:19
"o que se espera é que a ofensiva de Israel seja bem conseguida e destrua se não todo a grande maioria do arsenal do Hamas."

Exacto.

"O mal é que eles não ouviram o aviso e voltaram ao mesmo, nessa altura Israel tomará definitivamente o controlo do território."

Pois, esse parece-me a mim é o grande mal. É quase certo que eles voltarão ao mesmo, mas estou absolutamente convencido que a reocupação israelita da faixa de gaza será mais uma dor de cabeça (e retrocesso no processo de paz) do que o contrário.

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