Sábado, 3 de Janeiro de 2009

Sobre o Hamas

Diz Charles Krauthammer:

Since its raison d'etre is the eradication of Israel, there are only two possible outcomes: the defeat of Hamas or the extinction of Israel.

Claro que o problema que se coloca aqui é que a politica dos últimos anos levada a cabo para o conflito israelo-palestiniano originou que mais palestinianos tenham adoptado a razão da existência do Hamas como o caminho certo (e aqui a culpa reparte-se por todas as entidades envolvidas no processo, desde os israeltias aos palestinianos, passando pelos intermediários no processo de onde os Estados Unidos se destacam). O Movimento de Resistência Islâmico (Hamas), com origem em 1987, distinguiu-se na década de noventa pelos atentados de bombistas suicidas que levou a cabo, mas na altura era algo marginal na sociedade palestiniana, que via em Yasser Arafat e na Fatah o seu máximo representante. Com a morte de Arafat abriu-se um vazio na liderança do povo palestiniano e antes que a liderança de Mahmoud Abbas consolidasse a sua posição, a adopção de eleições foi forçada pelo ocidente (sempre na sua ânsia de espalhar a democracia). Se no inicio o Hamas afastou-se do processo democrático, pouco depois percebeu o potencial que daí adivinha. O ocidente é que desvalorizou o potencial de mobilização do Hamas e o descrédito da Fatah junto do povo palestiniano. A vitória do Hamas nas eleições parlamentares palestinianas, por larga maioria, caiu assim que nem uma bomba no processo de paz que se ambicionava facilitado com a morte de Arafat. Depois, tipico dos politicos com grandes ideias que vêem os resultados falhar, a importância da democracia para o ocidente sofreu um retrocesso, e a politica para a região forçou a todo o custo a queda do governo eleito do Hamas e a promoção da Fatah, numa escolha curiosa pelo menor de dois males - a Fatah aproveitou, e tipico da organização não democrática que sempre foi (tal como o Hamas), reconquistou o poder de forma forçada na Cisjordânia, relegando o dominio da faixa de Gaza ao Hamas (uma divisão de poder que teve custo penoso no número de vidas humanas perdidas).

 

Chegados a este ponto, o argumento de Krauthammer que cito em cima é, no minimo, preocupante. E é preocupante porque percebendo a lógica subjacente ao mesmo, temo as consequências do que se entende por derrota do Hamas. E o problema está tanto no entendimento do que é e como se atinge propriamente a derrota, como no que se entende por Hamas. O Hamas hoje, no seu todo, não me parece que seja só um conjunto de maluquinhos fanáticos que pretende a extinção do povo de Israel, a não ser que se entenda por conjunto de maluquinhos a maioria do povo palestiniano que, relembro, votou maioritariamente nestes (e que suspeito não têm pesadelos com a extinção dos israelitas da face da terra, de tão extremadas que estão as posições).

 

Aceitemos então que o Hamas é tanto representado pelos seus lideres como pelos seus apoiantes, como pode ser derrotado? Numa guerra militar? Dúvido, a não ser que a guerra tenha como objectivo o exterminio do povo palestiniano, o que não é minimamente aceitável. Claro que percebo a resposta actual israelita (e até certo grau concordo com ela), mas estou absolutamente convencido que não é solução final para o conflito e, paradoxalmente, poderá ter o efeito temporário de aumentar o número de apoiantes do Hamas. A derrota do Hamas terá de passar assim por uma batalha pela consciência do povo palestiniano, pela diminuição do extremismo vigente na sua sociedade e entre os seus lideres, factor endémico aquele povo em toda a história do conflito israelo-palestiniano e que, com o passar do tempo, naturalmente também foi contagiando o povo israelita.

 

Mas temo que nos últimos anos a única coisa conquistada por aquelas bandas foi um aumento da agressividade e desconfiança entre os dois povos, para não falar num novo foco de rivalidade entre o próprio povo palestiniano na luta pelo poder entre o Hamas e a Fatah. Se me perguntarem como é que se luta pela consciência de um povo tão obviamente cegado pelo ódio, não tenho resposta. Sei é o que não é solução (o exterminio de um ou de outro povo) e sei também que o equilibrio actual na região é insustentável. E pelo andar das coisas dificilmente se relegará tão cedo o Hamas para uma posição marginal na região, por isso, tanto quanto andar preocupado em derrotar definitivamente o Hamas, o caminho que deve ser trilhado é também o da tentativa de utilização do processo politico para alterar a razão de ser deste - sem que isso implique, obviamente, colocar de parte intervenções militares israelitas para corrigir os desvios fundamentalistas dos palestinianos mais extremistas.

publicado por Jorge A. às 12:45
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2 comentários:
De Tiago R Cardoso a 3 de Janeiro de 2009 às 16:51
bem visto e muito bem escrito.

Acredito que não existem inocentes na historia, mas que o fundamentalismos e os constantes ataques daqueles senhores da bandeira verde era um abuso, lá isso era.

De Jorge A. a 3 de Janeiro de 2009 às 23:39
"Acredito que não existem inocentes na historia"

Isso é certo, mas o pecado original foi cometido pelos árabes e os palestinianos, quando recusaram com recurso a guerra o mapa do plano inicial da ONU.

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