Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Simply the Best

É certo que com a garra com que Tina Turner cantava o seu verso e agarrava-se à canção qualquer que fosse o "you" a quem ela faz referência não teria dúvidas que seria simplesmente o melhor (já a Bonnie Tyler era menos convicente, dai de nada lhe ter servido a canção ser primeiramente interpretada por ela). Mas não há nada simples no apuramento do melhor, começando logo na relatividade do conceito.

 

Eu já estou naquela fase do ano em que começo a discutir os possiveis vencedores dos óscares, mas sempre que o faço também gosto de dizer que independentemente de quem o ganha, aquilo de muito pouco avalia o melhor do ano. Aquilo é uma pura votação de membros de uma organização que entre cinco filmes escolhidos previamente (e a escolha desses cinco filmes obedece a outra votação ainda com menos participantes) dá o voto maioritário a um deles.

 

Reparem que, em teoria, o filme vencedor podia inclusive, se fossem outros cinco os nomeados, devido a diferença de dinâmicas, perder. Ainda outra hipótese, fossem quatro os nomeados em vez de cinco, e também o vencedor na situação original poderia perder. São aliás as dinâmicas do voto que provocam muitas vezes aquelas vitórias inesperadas.

 

Vamos imaginar que o filme A era daqueles de gostar ou não gostar, sem meio termo. Nesse sentido teria 25% de preferência dos votantes entre os cinco nomeados. 25% dos votantes daria o seu voto a este, os restantes 75% prefeririam sempre dar o voto a qualquer outro dos quatro nomeados em relação a A. Aceitando que a opinião daquelas pessoas é suficiente para avaliar o melhor do ano, alguma vez este filme podia ser considerado o melhor? Não. No entanto, se a votação fosse equilibrada entre os restantes 4 filmes em questão (digamos, por exemplo, 18.75% para cada um), o filme A ganhava.

 

Reparem que eu com isto já nem preciso argumentar (no ambito de discussão por mim preferido) que aquele conjunto de "sábios" que vota nos óscares no conjunto da sua opinião tem tanto valor (ou ainda menos, para mim, obviamente) que a minha opinião pessoal - porque mesmo que o tenham, podem acabar por escolher um filme cuja maioria não consideria de longe o melhor em concurso.

 

Uma das coisas que pode ser dita sobre a avaliação dos "sábios" da academia é que eles fazem parte do meio, daí terem uma opinião mais fundamentada do que a de um leigo como o eu, que não é mais do que um consumidor de cinema. Este argumento é duvidoso se percebermos que a maior parte dos membros da elite de "sábios" não vê os filmes todos produzido no ano (muitos nem vêem todos os filmes nomeados) e, talvez pior, por serem do meio tem muitas vezes relações pessoais entre alguns dos possiveis vencedores - o que leva a um enviezamento a favor dos da casa (nota: Clint Eastwood, e mais não digo).

 

Porque gosto de debater sobre os óscares se aponto tantos defeitos aos mesmos? Bem, existem os seus motivos. O primeiro pelo simples gosto do debate e da descoberta de novos filmes (esta é a altura do ano em que mais procuro e consumo cinema), o que também se deve a um efeito pernecioso dos óscares que leva muitos dos melhores filmes a só estrearem por estas datas. O segundo porque aquilo é tanto um processo para a eleição do "melhor", como é um concurso de popularidade - e sendo isto ao mesmo tempo uma critica, é também por sí algo que me desperta interesse - mesmo porque torço que o reconhecimento que aquela cerimónia permite aos seus vencedores, seja dado às pessoas e filmes que prefiro. O terceiro porque o percurso para os óscares é também em sí um percurso politico e de marketing (inclusive com as suas primárias, representadas nos restantes prémios que antecedem os óscares). E o quarto e último motivo pelo simples gozo, aquele de chegar ao dia da cerimónia e tentar adivinhar quem ganha o quê.

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publicado por Jorge A. às 01:30
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2 comentários:
De António de Almeida a 10 de Dezembro de 2008 às 14:50
Porque muitos votantes são da casa, actores, realizadores, argumentistas, etc. também funciona o investimento que os estúdios fazem na promoção do filme A ou B, uma vitória rentabiliza sempre o filme (e o estúdio) vencedor, sendo expectável que alguns investimentos (filmes à espera de serem realizados) que se encontrem em stand-by possam ser produzidos. Normalmente os técnicos não costumam dar para esses peditórios, premiando na esmagadora maioria das vezes o mérito, mas fiquemos por aí, a lista de injustiças é demasiado longa...
De Jorge A. a 10 de Dezembro de 2008 às 21:54
"também funciona o investimento que os estúdios fazem na promoção do filme A ou B"

E de que forma, se os filmes que vencem são os melhores isso devia valer só por si, mas todos sabem que assim não é. Por exemplo a Walt Disney (promove o Wall-E) e a Warner Bros. (promove o The Dark Knight) tiveram dúvidas se valia a pena promover os seus filmes ao óscar de melhor filme do ano porque isso custaria muito dinheiro. Se o fazem é porque sabem que o fazendo aumentam a possibilidade do filme vencer (não há vitórias só pelo mérito) e vencendo arrecadam muito dinheiro com isso.

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