Sábado, 9 de Agosto de 2008

Ossétia do Sul

Para quem ainda não tenha reparado, iniciou-se uma guerra entre a Rússia e a Geórgia no dia de ontem (diria que o timing, em dia de inauguração dos jogos olimplicos de Pequim, foi perfeito para quem procurasse evitar os grandes cabeçalhos dos jornais de hoje). A origem da guerra reside nas pretensões independentistas da Ossétia do Sul, com o apoio dos russos, face à Geórgia. Dirão alguns que face ao precedente Kosovo (como de certa forma parece ser a opinião do António de Almeida) a Ossétia do Sul tem o mesmo direito de se tornar independente - não contesto. O que contesto é a intervenção russa e a aparente passividade da comunidade internacional - se há governo que não pode reclamar do precedente Kosovo para defesa das suas posições internacionais é o governo de Moscovo, que mantém a Chechênia sobre o seu jugo contra a vontade do povo da região. Curiosa é também a reacção dos sempre vigilantes contra as acções de guerra norte-americanas - por exemplo, o melhor que o Daniel Oliveira conseguiu atirar foi este post onde informa-nos que "ainda está longe a estabilização das ex-repúblicas soviéticas" e que "o novo mapa ainda não está desenhado".

publicado por Jorge A. às 10:13
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16 comentários:
De css a 9 de Agosto de 2008 às 10:58
Não presumo ter conhecimentos suficientes sobre a política internacional da zona, para poder comentar sobre a legitimidade de uns e outros. Confesso que necessitei de alguma investigação na internet, para perceber o estatuto político da Ossétia do Sul.

Todavia, partilho a perplexidade, não só da intervenção russa, mas acima de tudo da passividade da comunidade internacional.

A invasão pelas tropas russas, nada mais que é o culminar da instalação de um regime totalitarista que assistimos com a chegada ao poder de Putin.

Aliás, bastará uma passagem pelos noticiários e quem reune com Bush, quem reune com Jintao...?

Medvedev, quem...?



De Jorge A. a 9 de Agosto de 2008 às 14:10
"A invasão pelas tropas russas, nada mais que é o culminar da instalação de um regime totalitarista que assistimos com a chegada ao poder de Putin."

E o problema é que o interesse de Putin não é só a Ossétia do Sul, o objectivo final será outro, muito mais estratégico para os interesses russos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Abecásia
De css a 9 de Agosto de 2008 às 14:12
Concordo inteiramente com essa conclusão.
De António de Almeida a 9 de Agosto de 2008 às 13:47
-Jorge, não defendo que a Ossétia do Sul tenha legitimidade, afirmo sim que o reconhecimento da independência do Kosovo, proclamada de forma unilateral, abriu uma caixa de pandora que serve de justificação para tudo. A Ossétia do Sul declara-se independente, a Russia intervém hipocritamente sob o pretexto de defender a sua força de manutenção de paz, o ocidente observa, impotente, desde que a Rússia não ataque, e certamente não o fará a Georgia. O Kosovo foi mesmo um mau negócio para o ocidente, permitindo á Russia agora estes golpes. Só isso. De resto a Russia se aplicasse o princípio que defende para a Ossétia na Tchechenia... A hipocrisia é geral, e nem vale a pena ir buscar a Turquia, porque ainda acabaremos a discutir o Curdistão... O que levanto é o Direito Internacional, muito mal tratado, e uma ONU inexistente, e aí os EUA têm muitas responsabilidades, a par da Rússia e China.
De Jorge A. a 9 de Agosto de 2008 às 14:40
"não defendo que a Ossétia do Sul tenha legitimidade"

Se a situação enquadrar-se dentro dos parâmetros por mim conhecidos, eu defendo que sim, que a Ossétia do Sul tem essa legitimidade.

"afirmo sim que o reconhecimento da independência do Kosovo, proclamada de forma unilateral, abriu uma caixa de pandora que serve de justificação para tudo."

Não vejo onde sirva de justificação para tudo. Não percebo, por exemplo, como é que o Kosovo pode servir de justificação para a intervenção militar da Rússia, se a Rússia não reconheceu a independência do Kosovo e tem a questão da Chechênia para ponderar. Se reparar os russos não usam o pretexto do Kosovo como justificação para a legitimidade do seu acto ou para a legitimitade da independência da Ossétia do Sul (nem nunca o irão fazer).

"O Kosovo foi mesmo um mau negócio para o ocidente, permitindo á Russia agora estes golpes."

Um mau negócio para o ocidente é a independência energética de alguns paises europeus - nomeadamente da Alemanha - face aos russos, o que levou a certas posições politicas no plano internacional profundamente erradas no meu entender.

"A hipocrisia é geral, e nem vale a pena ir buscar a Turquia, porque ainda acabaremos a discutir o Curdistão..."

Os curdos, por exemplo, no norte do Iraque estão-se a dar muito bem com a vida agora que tem autonomia - foram os primeiros a restabelecer-se no pós intervenção norte-americana e não dúvido que daqui a alguns anos, com a situação mais estabilizada, pretendam ver a sua independência reconhecida do Iraque.

"O que levanto é o Direito Internacional, muito mal tratado, e uma ONU inexistente, e aí os EUA têm muitas responsabilidades, a par da Rússia e China."

Não percebo suficientemente de Direito Internacional para perceber se foi bem ou mal tratado, sei é que quando a maioria de um povo de uma região pretende ser livre - independentemente dos motivos por trás de tal decisão - devia ter todo o direito a exigir e a obter essa independência.

Que a ONU não funciona há muito que já sabiamos e a culpa não me parece que seja deste ou daquele país. Sempre que estão envolvidos interesses dos grandes países é o bloqueio geral, e pensar que é possível reformular a ONU de forma a torná-la mais democrática e efectiva é uma utopia - não imagino, por exemplo, os americanos a deixarem que o mundo enquanto um todo decida a posição a tomar em situações em que os interesses americanos apontam claramente num sentido - e, digo eu, fazem eles (os russos, os chineses, etc...) muito bem.
De António de Almeida a 9 de Agosto de 2008 às 18:27
-Se aceito o princípio das declarações de independência unilateral, tenho de as aceitar todas, Kosovo, Tchechenia, Ossétia, Abkhasia, mas também Palestina, Curdistão, País Basco, etc, etc, etc, é mesmo uma verdadeira caixa de pandora. Claro que concordo que os EUA, China e Rússia, mas já agora todos os outros países, defendam os seus interesses, só que aí nada funciona, o Conselho de Segurança é um vazio total. Não defendo de forma alguma a oligarquia russa, liderada pelo aspirante a czar Putin, nem vou afirmar que o problema é a Ossétia, não é, nem sequer é a Georgia, é mesmo a questão energética, mas o governo de Tbilissi ao entrar em força na Ossétia, cometeu um erro, que a Russia aproveitou. Nestas matérias não há santos, todos têm os seus esqueletos no armário.
De Jorge A. a 9 de Agosto de 2008 às 22:03
"Se aceito o princípio das declarações de independência unilateral, tenho de as aceitar todas, Kosovo, Tchechenia, Ossétia, Abkhasia, mas também Palestina, Curdistão, País Basco, etc, etc, etc, é mesmo uma verdadeira caixa de pandora."

Não. Porque o que está em causa não é só a declaração de independência, mas também o desejo expresso pela grande maioria da população daquela região em ser independente - coisa que, por exemplo, não se coloca no caso do País Basco. Quanto à Palestina, o António tem dúvidas que mais cedo ou mais tarde um país com esse nome tem de ser criado na região? Mesmo porque se ainda não existe a culpa não foi em primeiro lugar dos israelitas. Quanto ao Curdistão não conheço em detalhe para me pronunciar, mas não vejo porque em regiões onde são a grande maioria não possam ser independentes - ou qual é o motivo encontrado para o António para justificar que um povo de 26 milhões de pessoas, com raizes históricas numa determinada região, não possa ter a sua pátria?

"o governo de Tbilissi ao entrar em força na Ossétia, cometeu um erro, que a Russia aproveitou. Nestas matérias não há santos, todos têm os seus esqueletos no armário."

Exacto, a Rússia aproveitou acusando a Geórgia de fazer o mesmo que a Rússia fez na Chechênia. O erro da Geórgia é ser mais pequenina que a Rússia. Mas concordo consigo que não há santos nestas matérias.
De Beto a 9 de Agosto de 2008 às 17:03
A Óssetia (norte ou sul pois no fundo são a mesma) sempre estiveram do lado Russo, a população é 90% Russa, com passaporte Russo, usam o rublo como moeda,não falam Georgiano, não têm qualquer cultura que os ligue à Geórgia, bem antes pelo contrário. Mt aturou a Rússia as provocações do Saakashvilli...que os Russos não são flor que se cheire isso sabemos todos, mas nesta situação em particular têm a razão do seu lado,quer estratégica que da população que é maioritariamente Russa.
Alias, se a Rússia não se mete "a pau" qq dia tem misseis americanos na praça vermelha...misseis "defensivos" claro.
De Jorge A. a 9 de Agosto de 2008 às 17:53
Caro Beto,

"Alias, se a Rússia não se mete "a pau" qq dia tem misseis americanos na praça vermelha...misseis "defensivos" claro."

A Polónia e a República Checa estão do lado americano, a população é maioritariamente polaca e checa respectivamente, com passaportes polaco e checos, usam o Zlotych e a Coroa Checa como moeda, não falam russo, não têm qualquer cultura que os ligue à Rússia, bem antes pelo contrário. Tem alguma coisa contra misseis "defensivos" nestes dois paises por sua vontade? É que a avaliar pela atitude da Rússia na Ossétia, os polacos e checos é que qualquer dia tem os misseis ofensivos da Rússia a bater-lhes à porta.
De Beto a 9 de Agosto de 2008 às 19:10
Sr Jorge, o sr está a misturar problemas de completamente diferentes e até com amplitudes diferentes.Uma coisa é a Rússia não desejar que misseis estejam colados nas suas fronteiras, ainda por cima americanos cheios de boa vontade claro, outra é esta situação na Óssetia onde a população é Russa, o território tem ligações à Rússia e mais importante deseja estar ligada Rússia,território esse que foi anexado pela Geórgia (a nova amiga do Ocidente) em 1992 e onde desde então tem-se tentado fazer uma limpeza étnica na região, com a ONU a assobiar para o lado. Alias a mim pessoalmente admira-me como é que a Rússia tolerou isto tantos anos, coitados devia estar mesmo a cair de morto aquele Exército,mas parece que acordaram.
De Jorge A. a 9 de Agosto de 2008 às 22:14
Meu caro,

"o sr está a misturar problemas de completamente diferentes e até com amplitudes diferentes."

Peço desculpa, pensei que o Beto é que tivesse começado a misturar os assuntos - impressão minha, certamente.

"Uma coisa é a Rússia não desejar que misseis estejam colados nas suas fronteiras"

Que é o mesmo que dizer que a Rússia considera que os países próximos de sí estão sob a sua esfera de influência e não podem tomar decisões independentes antes de a consultar e obter o seu aval.

"outra é esta situação na Óssetia onde a população é Russa, o território tem ligações à Rússia e mais importante deseja estar ligada Rússia"

É isso tudo? A Rússia tem razão? E a Chechênia, como é que é? O caro Beto é que parte de um erro de raciocinio quando afirma que a Rússia tem razão, na minha opinião os habitantes da Ossétia tem razão, os russos não são para ali chamados e a comunidade internacional não pode permitir que estes actuem daquela forma. Ou acha a intervenção russa mais legitima que a intervenção americana no Iraque? É que os russos nem um esboço a solicitar autorização da ONU para a intervenção fizeram.
De Zé da Burra o Alentejano a 11 de Agosto de 2008 às 17:13
A HIPOCRISIA DA POLÍTICA MUNDIAL:

É interessante comparar o conflito da Sérvia contra o Kozovo ou a Bósnia com o caso actual da Geórgia contra a Ossétia do Sul.

No primeiro caso as províncias revoltosas receberam apoio dos EUA e de outros países ocidentais, conseguiram a sua independência e condenar os responsáveis sérvios por crimes de guerra; Agora é a vez da Ossétia do Sul receber o apoio da Russia contra a Geórgia.

Quer num, quer noutro caso as potências apoiantes apenas defendem (ou defenderam) os seus particulares interesses estratégicos. Até a avaliação dos "crimes de guerra" praticados por uns e outros poderão ser comparados. A razão está de um ou de outro lado apenas conforme o ponto de vista.

Não podemos esquecer o Iraque que foi invadido a pretexto de uma mentira conhecida de todos os países que apoiaram a invasão: prenderam o então chefe máximo do país e entregaram-no ao inimigo para que o "julgasse". É claro que o resultado do julgamento estava traçado à partida. Não se pode justificar com o facto do Sadam Hussain ter sido um ditado porque tem havido e há muitos deles pelo mundo fora e não costumam ser ser retirados do poder à força pela comunidade internacional.

Houve ainda o caso do Pinochet, cuja extraditação para Espanha foi recusada pelos Tribunais ingleses por se tratar de "um antigo chefe de estado e que por isso seria merecedor de um tratamento de excepção". Acabou por morrer em paz e sossego, apesar do numerosos crimes praticados.


De Jorge A. a 11 de Agosto de 2008 às 20:16
Caro Zé da Burra,

a hipocrisia da politica internacional e de algum povo. Não fossem os russos os autores desta guerra e fossem outros, os americanos, e o que não faltaria era manifestações de rua anti-guerra e muitas vozes de indignação entre a extrema-esquerda.
De Zé da Burra... a 2 de Setembro de 2008 às 09:54
Caro Jorge: Quantas manifestações viu em Portugal contra a independência do Kozovo ou contra o vergonhoso ataque ao Iraque?
De Jorge A. a 2 de Setembro de 2008 às 23:39
Uma série delas, praticamente todas com o alto patrocinio do PCP. Contra o Iraque houve inclusive uma onde o então secretário geral do maior partido da oposição, Ferro Rodrigues, esteve presente, ou não se lembra?
De Zé da Burra o Alentejano a 12 de Novembro de 2014 às 17:07
O Estado português foi conivente com a invasão do Iraque, que depois foi abandonado em guerra civil depois quando se tornou pesado em número de mortos para os soldados americanos. Era previsível. Os EUA voltaram agora de novo ao Iraque mas o governo iraquiano não será capaz de manter o país em paz logo que os soldados dos EUA (e aliados) voltem a sair.

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