Sábado, 26 de Julho de 2008

The Dark Knight (III)

O The Dark Knight é um grande filme? Não tenho grandes dúvidas. Ao sair da sala onde o filme havia sido projectado e o  genérico final ainda corria, sentia aquela rara satisfação de felicidade por saber que havia visto uma coisa bela e que justifica em pleno o rótulo de sétima arte para aquilo a que se designou chamar cinema.

 

O filme demora a aquecer - posso ter sido afectado por ter visionado antecipadamente os primeiros cinco minutos do filme onde o Joker faz a sua primeira aparição - mas durante a primeira hora de rodagem, e salvo ocasionais aparições do Joker, a coisa não vai muito além do habitual.

 

Mas depois compreende-se. Nolan tinha de enquadrar a história e perdeu o tempo inicial a fazê-lo. Por vezes, no enquadramento, perde-se na complexidade de tudo o que pretende retratar e dá pulos na acção injustificados (por exemplo a sequência final da festa de Bruce Wayne em honra de Harvey Dent não explica como é que o Joker abandona a festa), mas logo de seguida reencontra-se e devolve-nos toda a magia deste The Dark Knight.

 

O filme é longo, mas tem a fascinante proeza de manter a acção em permanente climax durante toda a sua hora e meia final. Nesse climax, tanto é-nos apresentada algumas das melhores sequências de acções da história do cinema, como das melhores cenas de representação dos últimos tempos. Para isso muito contribui o Joker e o actor que o protagoniza, Heath Ledger, que merece toda a atenção que tem recebido por parte da critica e do público - todas as cenas do Joker enquanto prisioneiro são uma delicia para qualquer verdadeiro amante de cinema (e não, a sua morte pode ter garantido uma aura especial a este papel, mas todos os elogios são poucos para uma representação tão bem conseguida). O Joker não só assusta como, sem nunca ser cómico, ou reformulando, sem nunca tentar ser cómico, provoca o sorriso fácil (a sua cena a sair do hospital que acaba de detonar é magnifica, ou a cena inicial do truque do lápis, etc...).

 

Entre as cenas de acção, o suspense, o dramatismo e o romance, fica também a análise filosófica a que o realizador se propõe. A caracterização do Joker como um bandido cujas acções não carecem de justificação, nem aparentam tê-la. A visão anárquica de sociedade do Joker e os seus objectivos, da criação do caos para fazer sobressair nas pessoas os seus receios e por essa via forçá-las a tornarem-se um pouco como ele próprio se vê. A tentativa de equivalência entre o que o Joker e o Batman representam, mas ficando claro desde o principio o que os distingue. E é a linha que os distingue, que Batman nunca atravessa (embora o próprio Batman compreenda que alguns limites têm de ser quebrados e ele quebra-os para lutar contra um grande mal), que será transposta por Harvey Dent - o Two-Face surge assim não apenas como um personagem com mero delirio psicológico, de alternância entre dois estados de espirito distintos, mas sim como uma metáfora de como é curta a distância entre o que distingue o herói do vilão.

 

Mais havia a dizer, outras analogias se poderiam traçar, nomeadamente com o onze de Setembro de 2001, a América actual, a paranóia de vigilância que varre a nossa sociedade, e em como o filme tenta incorporar isso tudo na sua mensagem.

 

Mas no fim, é um filme sobre os heróis que queremos e sobre os heróis que efectivamente temos. Sobre os heróis que imaginamos existir e sobre os heróis que sem imaginarmos, existem. E sobre os dilemas morais que afectam aqueles cujos opositores não revelam reger-se pelo mesmo código moral. Sobre a solidão e responsabilidade que advém da posse de um grande poder. Sobre as escolhas que se fazem e as consequências que se acarretam.

 

Vale a pena.

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publicado por Jorge A. às 02:26
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