Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Enquanto há vida há esperança

O Lusco Fusco pergunta onde nos leva esta estrada, referindo-se ao último livro que li. Eu havia prometido ao Fusco dar uma palavrinha sobre o livro, ora cá vai.

O livro abre com um "Quando acordava nos bosques, na escuridão e no frio da noite, estendia a mão para tocar na criança que dormia a seu lado. Noites de trevas mais densas do que as próprias trevas e cada dia mais cinzento do que o anterior." E assim inicia um livro que vale a pena ler.

A história parte de uma simples premissa: um homem e seu filho (a criança) percorrem a estrada rumo a sul, no meio da devastação total - uma devastação que nunca nos chega a ser explicada, mas que deixou a terra despida de cor e de vida - o cinzento predomina, e os poucos seres humanos com que nos deparamos ao longo da estrada, com raras excepções (das quais pai e filho são o mais brilhante exemplo), são seres que há muito perderam a sua dimensão humana. E há um cão, mas isso já é outra história...

A estrada torna-se então um lugar onde, para além do homem e da criança (cujos nomes nunca viremos a saber), vagueiam almas perdidas e os "maus", como a criança apelida os que se alimentam da sua própria espécie - sempre em justaposição a eles próprios, os "bons".

Pressume-se que a praticamente inexistência de outros animais - com a rara excepção do ladrar de um cão - seja facilmente explicável com a teoria de terem servido de alimentação aos humanos que sobreviveram ao apocalipse, isto antes de alguns da espécie humana, por escassez de alimentos, terem decidido alimentar-se dos que outrora foram seus semelhantes.

Pai e filho recusam-se a recorrer ao mesmo meio de subsistência - e entre o permanente receio de se virem transformados em comida para outros, lá vão vivendo do que vão encontrando nas casas abandonadas das povoações despidas de gente. Não sem contudo, a certa altura e no meio de um dos vários períodos de fome que tem de suportar, o rapaz questionar o pai sobre o canibalismo dos outros, e sobre a necessidade de um dia no futuro eles próprios terem de recorrer a tal forma de vida.

É certo que nunca ao longo do livro os dois vão recorrer ao canibalismo, mas não é menos certo que, em função da sua sobrevivência, é notório nas reacções do pai a sua desumanização - o que provoca sempre reacções de profunda tristeza à criança. É perceptível através do livro que o pai mantém-se vivo por causa do filho, mas não é só isso que deve à criança, deve-lhe também o facto de manter-se humano (pelo menos a dimensão humana a que me refiro).

Uma história que vive do amor entre pai e filho, mas também da força que caracteriza a esperança e a fé... tendo sido a perda dessas duas coisas que levaram ao trágico destino da mãe da criança.

Para mais, aconselho a leitura do livro, e logo saberão o que se encontra no fim da estrada...
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publicado por Jorge A. às 21:07
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